O mundo está repleto de caminhos invisíveis, as rotas tomadas todos os anos por incontáveis bandos de gansos, cervos e salmões, ou libélulas, zebras e tartarugas de couro.
Suas migrações nos tocam além da compreensão. Observadores de pássaros se agrupam em locais como o Cabo May, em New Jersey, para assistir as aves em suas jornadas para o extremo norte na primavera e seu retorno para os trópicos no outono. Ecoturistas vão para o Serengeti apontar seus binóculos para manadas de antílopes que se estendem pelo horizonte. Estudantes nos Estados Unidos observam as borboletas monarcas saírem de suas crisálidas dentro das salas de aula e então partirem rumo ao México.
Mas em seu novo livro “No Way Home” (Sem Caminho Para Casa), David Wilcove, um biólogo de Princeton, alerta que “o fenômeno da migração está desaparecendo ao redor do mundo.”
Apesar de seu grande número, as espécies migratórias são particularmente vulneráveis à caça, à destruição dos ambientes naturais e às mudanças climáticas. Os humanos já erradicaram algumas das maiores migrações do mundo, e muitas outras já estão desaparecendo. Enquanto muitos biólogos conservacionistas têm observado o declínio de migrações individuais, o livro do Dr. Wilcove os combina numa síntese alarmante. Ele argumento que não são apenas as espécies individuais que deveríamos estar conservando — nós também precisamos proteger o estilo migratório de vida.
Como cientista, o Dr. Wilcove considera o desaparecimento das migrações mundiais particularmente triste, pois há muito ainda a aprender. Quais são as pistas que guiam os animais durante suas jornadas? Como eles navegam distâncias imensas para lugares onde nunca estiveram? Como algumas espécies viajam por dias sem comer um único grão de comida?
Os cientistas nunca poderão responder essas perguntas a respeito de migrações que deixaram de existir. As jornadas de dezenas de milhões de búfalos nas Grandes Planícies americanas permanecerão um mistério.
Mas hoje os cientistas estão inventando novas maneiras de aprender sobre os migrantes sobreviventes. Eles podem anexar pequenos sensores em libélulas ou analisar penas quimicamente para descobrir os pontos de invernada de algumas aves.
Infelizmente, muito do que eles estão descobrindo é sobre as ameaças que um mundo dominado por seres humanos impõe às migrações.
Os animais são particularmente suscetíveis à caça enquanto migram porque viajam em vastos grupos, em locais e lugares previsíveis. A sobrevivência de animais migratórios depende de todos os hábitats ao longo da viagem. E uma espécie de ave migratória pode desaparecer se as florestas onde passam o inverno forem derrubadas, ou se seus lares de verão forem destruídos, ou se os locais onde descansam ao longo da migração desaparecerem.
Ao menos as aves se dão ao luxo de poder voar; quando os salmões do Pacífico Norte nadam dos mares em direção à cabeceira dos rios até os seus locais de reprodução, eles agora precisam atravessar inúmeras represas. O lago Redfish (peixe vermelho), em Idaho, ganhou seu nome pela cor dos milhares de salmões que coloriram suas águas após nadarem cerca de 1500 quilômetros a partir do mar. Este ano apenas quatro salmões alcançaram o lago.
Em “No Way Home”, o Dr. Wilcove também descreve ameaças que apenas recentemente foram compreendidas. Os chopins (gênero Molothrus) podem devastar populações de aves canoras migratórias nos Estados Unidos por parasitar seus ninhos, por exemplo. As mães dos chopins derrubam ovos de outras espécies dos ninhos e colocam o seu próprio no lugar. E acontece que florestas fragmentadas são um hábitat excelente para os chopins.
Nos próximos anos, alerta Wilcove, o aquecimento global pode ter um efeito enorme sobrer as migrações, fragmentando ecossistemas e deixando animais migratórios sem alimento.
É difícil chegar a uma estratégia para preservar um fenômeno tão multifacetado quanto a migração anual. Se uma espécie de árvore que vive apenas em parte da Flórida está ameaçada, a solução é simples: tente conservar aquele pequeno trecho de hábitat. Mas animais migratórios não respeitam fronteiras internacionais. Sua preservação exige que os países trabalhem em conjunto para encontrar soluções. O Dr. Wilcove aponta alguns bons modelos — a conservação das planícies do Serengeti, conseguida pela união dos governos da Tanzânia e do Quênia, e os esforços conjuntos dos Estados Unidos e Canadá para proteger o grou canadense (Grus canadensis).
Mas uma ave como o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus), que passa os verões no Ártico e os invernos na Terra do Fogo, no extremo sul da América do Sul, parando no caminho para se alimentar ao longo de toda a América do Norte e do Sul, vai exigir um nível de cooperação sem precedentes.
É, como escreve o Dr. Wilcove, uma luta justa: “é um dos mais assustadores e gratificantes desafios na conservação da vida selvagem”.
- Carl Zimmer, New York Times.
<http://www.nytimes.com/2008/01/01/science/01migr.html?_r=1&ref=science&oref=slogin>