Arquivo para Abril, 2008

O que a imprensa não diz sobre a inflação da fome

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O noticiário dos últimos dias sobre o risco de uma crise inflacionária mundial, que afetaria com especial severidade os países mais pobres, oferece uma excelente oportunidade para se observar a dificuldade que tem a imprensa para dar uma interpretação mais profunda sobre o estado do mundo. Praticamente tudo que se publica é originado em duas ou três agências de notícias, o que induz a acreditar que se trata de uma deficiência planetária.

Vejamos os pontos principais do fenômeno: os preços dos alimentos básicos, in natura – parte do conjunto de mercadorias chamadas de commodities – vêm aumentando progressivamente ao longo dos últimos 16 meses, com uma aceleração acentuada no último trimestre. Trigo e arroz estão no topo da lista dos grãos mais consumidos, respectivamente a Oeste e a Leste do planeta. O milho completa o cardápio dos mais pobres, que são, segundo o informe Indicadores do Desenvolvimento Mundial para 2008, do Banco Mundial, 880 milhões de pessoas.

Esses indicadores vêm apontando o decréscimo do número de seres humanos extremamente pobres, que dispõem de valores correspondentes a menos de um dólar por dia. Essas são as pessoas que a imprensa chama pobres ou miseráveis, cujas vidas se caracterizam pela necessidade de lutar diariamente por alimento. São não-consumidores, não-cidadãos.

Antes que os sarcásticos elaborem a anedota de mau gosto, deve-se afirmar que o número de pobres não está acabando porque eles morrem. A pobreza vem diminuindo no mundo porque, desde o início deste século, os chamados países em desenvolvimento – sofisma menos indigesto para o que se chamava antigamente de Terceiro Mundo – apresentam uma taxa média de crescimento do PIB per capita de 4,8% ao ano. O PIB per capita resulta do cálculo da riqueza produzida pelo país, dividida pelo número de habitantes, o que revela quase uma ficção, conforme se dá a distribuição de riqueza e bem-estar – com os abismos sociais que se conhece.

Atenção para o fato de que o constante declínio da pobreza mundial desde 1993 aconteceu principalmente na zona rural, visto que a miséria nas cidades permanece mais ou menos constante. A ONU estima que 80% do declínio da pobreza rural se deve à melhoria das condições de vida no campo, e não à migração para as cidades. Isso deve ser levado em conta no noticiário sobre a crise que pode afetar a produção de alimentos.

Fronteiras agrícolas

A “inflação de alimentos” tem parte da origem nesse fenômeno: mais gente cisma de comer todos os dias, aumenta a pressão da demanda sobre a oferta, o preço sobe. Essa a explicação que a imprensa nos empurra nas primeiras linhas das reportagens. É como se o editor nos dissesse: “Procura maior, demanda menor, preço sobe. É o capitalismo, seu estúpido”. Até o presidente Lula comemorou: é a “inflação do bem”, aquela que aparece porque o miserável está saindo da miséria. No fundo, ele tem razão, mas seu raciocínio não completa o desenho.

Tem mais. Nos parágrafos seguintes, os jornais e revistas nos dizem que o preço dos alimentos subiu também porque parte das terras agriculturáveis está sendo utilizada para a produção de biocombustíveis. E os acionistas das empresas petrolíferas sorriem, abrem a caixa de anúncios, investem na semeadura de suspeitas sobre os projetos de substituição da matriz energética petrolífera. Em algum canto, alguém observa que o problema da competição entre o vegetal para consumo e o vegetal para fazer combustível acontece principalmente nos Estados Unidos, onde a disponibilidade de terras agriculturáveis é muito pequena. Nada a ver com o etanol brasileiro. Mas isso fica no pé da matéria.

O Brasil tem um potencial de quase 70% de suas terras agriculturáveis esperando o plantio de vegetais, sejam eles destinados a alimentar pessoas, gado, aves ou preparados para se transformar em álcool ou óleo combustível. Pela mesma razão, não há forma inteligente de justificar o avanço das lavouras sobre o cerrado e a Amazônia. A crença de que o brasileiro tem que escolher entre alimentar seu povo e abastecer seu carro é fruto de uma avaliação divulgada por Lester Brown, criador do WWI – sigla em inglês de World Watch Institute, que no Brasil se chama Instituto Mundial para a Liberdade, o Progresso e a Paz Global –, especialista em economia agrícola.

Muitos outros especialistas o contradizem e consideram sua campanha “comida versus combustível” pura demagogia. Pelo menos no caso do etanol brasileiro, a expansão da lavoura com finalidade de produção de combustíveis necessita apenas de mais ordenamento e mais responsabilidade dos empresários rurais. O Brasil possui uma área total de 845,94 milhões de hectares de terras agriculturáveis, das quais utiliza apenas 263,58 milhões de hectares para atividades agrícolas, ou seja, menos de 32% do seu potencial. Isso indica a possibilidade de expansão das fronteiras agrícolas do país e da capacidade de ampliação da produção de grãos, sem que seja necessário destruir nossa riqueza natural. Além disso, a agricultura brasileira, mesmo em pequenas propriedades, vem melhorando enormemente sua produtividade, na medida em que práticas primitivas de preparação e plantio vão sendo substituídas com a assistência de técnicos qualificados formados por aqui.

Validade endossada

O problema real, no caso brasileiro, tem origens mais antigas do que a invenção do velho Proalcool: trata-se da gestão territorial do país, que nunca considerou seriamente uma reforma agrária com o pressuposto da sustentabilidade. A lavoura avança sobre a floresta porque é administrada por delinqüentes, sob a proteção de governos de estados que formam a Amazônia Legal e sob o olhar complacente do governo federal. A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, é quase uma extraterrestre nesse ambiente. Muitos desses delinqüentes são agricultores pobres, sem terra, que são tangidos pelo avanço dos latifúndios. Eles queimam a floresta, formam pastagens, soltam o gado, depois fazem o rocio. Atrás deles vem o agronegócio.

Mesmo o álcool de milho, alternativa tecnológica dos Estados Unidos baseada na tradição da agricultura local, não deverá no longo prazo continuar sendo um fator de inibição para a produção agrícola. Com o avanço das pesquisas tecnológicas, estamos perto de poder produzir álcool com a palha e a espiga do milho. Como não consta entre as preferências gastronômicas, nem mesmo dos mais pobres, a degustação de espigas, naturalmente as sementes de milho seguirão sendo destinadas ao consumo humano e animal e as demais partes da planta, inclusive a haste, irão para a usina de álcool.

Claro que os subsídios do governo americano aos seus agricultores representam uma pressão adicional sobre o movimento inflacionário que nasce nos preços dos alimentos. Como é que um agricultor da África ou do Peru pode competir com um produtor do Meio-Oeste americano? Observe-se que os insumos agrícolas são fornecidos por multinacionais, que dominam também o mercado de sementes e equipamentos, e pode-se calcular o que é esse tal de mercado “livre”. Esse aspecto adicional da notícia também aparece nas reportagens, meio envergonhadamente, mas não há jornal ou revista que se aventure a colocar em dúvida a validade do sistema econômico que se afirma “liberal”.

Sistema de castas

Por último, mas não menos importante, vem outro ângulo da questão, que tem seu endereço muito longe das lavouras de milho, de trigo ou de arroz: o mercado de ações, onde as commodities vêm ocupando um espaço cada vez mais relevante. De olho na inclusão de quase 1 bilhão de indivíduos na lista dos seres humanos que insistem em se alimentar diariamente, e com a perspectiva de consolidação da indústria de combustíveis alternativos – o mercado de commodities também lida com minérios e outros produtos cuja demanda cresce continuamente –, os investidores depositaram fortunas nas bolsas, na expectativa de aumento dos preços. Em algum momento, a expectativa se realiza, os preços começam a subir, mais investimento é derramado na fogueira, e de repente o mundo se assombra com uma inflação de alimentos básicos.

Já não se pode, como teria feito Maria Antonieta, sugerir que, não havendo pão, os pobres comam brioches. Ou, numa versão nacional, não havendo farinha para tapioca, que se coma caviar. Afinal, somos todos politicamente corretos. A imprensa, então, nem se fala. É profundamente ecológica e socialmente responsável. Basta ler os cadernos especiais sobre Amazônia que são publicados de vez em quando.

Você, leitor e leitora, ainda vai ler muito mais sobre essa crise, porque não há recursos no sistema econômico mundial para contê-la antes que provoque muita fome e distúrbios sociais. Não por falta de dinheiro, mas por falta de lideranças, de vontade política, de condições logísticas e de desprendimento.

O dinheiro necessário para salvar alguns milhões de seres humanos ameaçados pela inanição é uma bagatela: 500 milhões de dólares. Isso é uma fração da fortuna pessoal do mais vistoso empresário brasileiro pertencente à cepa dos “sustentáveis”. O que você provavelmente nunca vai ler é uma análise honesta da imprensa sobre o sistema econômico que divide os seres humanos em castas e considera que uns podem tudo e outros… bem, esses outros não compram jornais.

- Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa, 15/abr/2008

<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=481IMQ002>

Para não fazer o negócio da China

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Chama-se O Segredo Chinês – Milagre Econômico e a Vida Real na China de Hoje – o livro lançado pela Editora Record no mês passado, que seria muito útil nas mãos de jornalistas responsáveis pela orientação das pautas da imprensa brasileira. Se a imprensa não consegue se aproximar do tema da sustentabilidade pelo ângulo do risco ambiental, esse livro se oferece como um instrumento útil para a compreensão do novo contexto global, pela visão do risco social.

A diferença entre uma e outra abordagens é que o risco ambiental, explicitado pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em fevereiro de 2007, produz no máximo campanhas pontuais das quais não resultou ainda qualquer mudança substancial no modelo de desenvolvimento adotado pelo governo brasileiro. Os números recentes do desmatamento da Amazônia, a
despeito de toda a polêmica sobre a acuidade das avaliações via satélite, demonstram que as autoridades não conseguem reverter o processo de perda do patrimônio natural do país.

Nas empresas, o que se vê como resultado da constatação de que as ações humanas conduzem a uma situação irreversível para o planeta ainda são iniciativas pontuais, mais claramente dirigidas para a melhoria da imagem institucional do que destinadas a fazer diferença no cenário de risco. Contam, quase sempre, com a boa vontade da imprensa em destacar as “boas ações”, naquilo que se convencionou chamar responsabilidade socioambiental das empresas.

Repensar o modelo

O livro O Segredo Chinês…, escrito pelo casal de jornalistas e escritores Chen Guidi e Wen Chuntao, tem o mérito de radiografar o mundo rural chinês, revelando que o modelo de desenvolvimento daquele país produziu a exclusão de nada menos do que 900 milhões de cidadãos, dos quais 700 milhões são agricultores sempre à beira da fome e do desespero, mas ainda presos ao campo, e 200 milhões são trabalhadores rurais que vagueiam pelo país, de obra em obra, longe de suas famílias, em busca de trabalho e sustento. Uma estrutura burocrática inchada e corrupta completa o quadro.

O ponto de inflexão que deveria chamar a atenção dos jornalistas brasileiros é o fato de que o livro foi lançado em 2004, quando a China alcançava níveis de crescimento surpreendentes, entre 8% e 9% ao ano, sob aplausos da imprensa ocidental. Não foram poucas as manchetes de jornal e as capas de revista comparando o robusto crescimento da China contra os minguados 2,5% da economia brasileira no período.

Também não se pode esquecer o desfile de economistas exigindo crescimento a qualquer custo, articulistas especializados e os corneteiros de sempre a cobrar mais facilidades para o capital e menos restrições para os negócios.

O livro, traduzido para o mercado brasileiro com três anos de atraso, revela, para quem queira tomar conhecimento, um fato que os estudiosos do processo da globalização e os profissionais preocupados com a busca da sustentabilidade vêm gritando em vão: o crescimento sem respeito ao meio ambiente e sem ganhos sociais é retrocesso. Como curiosidade, deve-se registrar o título que a Folha de S.Paulo deu ao texto sobre o livro, na edição do dia 29 de março: “Camponeses perturbam milagre chinês”.

O que os autores do livro testemunham é um fato relatado há tempos por executivos brasileiros que visitam regularmente o interior da China. Paralelamente ao desastre ambiental que se processa naquele país, desenha-se lá também aquilo que o ecossocioeconomista Ignacy Sachs chama de a iminência de um “tsunami social”. Modestamente, este observador deu sua contribuição para o debate no livro O Mal-Estar na Globalização (2005, Editora A Girafa), prêmio da União Brasileira de Escritores, na categoria ensaio, em 2006. Houve dezenas, talvez centenas de seminários, debates, defesas de teses, pesquisas, mas a imprensa seguiu martelando a defesa do velho modelo da busca de resultados financeiros das empresas como única forma de estimular o crescimento da economia.

Não se trata apenas de incapacidade da imprensa para entender a necessidade de repensar o modelo econômico, ou de falta de disposição para romper com os paradigmas que tradicionalmente orientam as escolhas editoriais. Trata-se também da ausência de sensibilidade para determinados temas, que parecem esgotados depois do tardio engajamento da mídia nacional na campanha pela redemocratização do país, nos anos 1980.

Propostas alternativas

O Brasil celebra em 2008 os trinta anos da Constituição de 1988, fundamental para a reconstrução do Estado de Direito, da qual a imprensa tirou grandes benefícios. Também são lembrados os vinte anos do assassinato do ambientalista Chico Mendes, líder dos seringalistas do Acre. A imprensa cobriu bem o desenvolvimento da Constituinte, mas ignorou a luta de Chico Mendes praticamente até o dia da sua morte, mesmo depois que ele já havia se tornado uma figura reconhecida internacionalmente, com o prêmio Global 500 da ONU. A exceção era o jornal alternativo Varadouro, mantido de 1977 a 1981 pelos jornalistas Elson Martins e Sílvio Martinello, com risco constante de perder suas próprias vidas.

Durante todos os anos da luta dos seringueiros, até 2008, a imprensa regional da Amazônia apoiou incondicionalmente os fazendeiros que, com financiamento oficial e suporte do Estado, empurravam as fronteiras da agropecuária para dentro da floresta, tornando impossível a vida dos seringueiros. Dezenas de coletadores de castanhas e de látex foram mortos por pistoleiros, sob o silêncio omisso e cúmplice da imprensa nacional, até o dia 22 de dezembro de 1988, quando Chico Mendes tombou, baleado por um criador de gado. A imprensa brasileira só enxergou o drama dos seringueiros depois que o New York Times publicou em primeira página uma reportagem sobre o drama que se desenrolava nas florestas da Amazônia Ocidental.

Na semana que passou, a revista Veja voltou a se interessar por Chico Mendes. Mas não necessariamente para relembrar sua luta e atualizar seus leitores sobre a luta pela preservação da maior reserva de biodiversidade do planeta. O que chamou a atenção de Veja foi o cheiro de sangue: a viúva de Chico Mendes, Ilzamar, concedeu entrevista ao blog do jornalista acreano Altino Machado, na quarta-feira (2/4), na qual desfiou um rosário de queixas contra o governo petista do Acre, a quem acusa de não respeitar o legado do líder ambientalista. Jornalistas de Veja passaram os últimos dias tentando falar com ela, para dar amplitude nacional ao seu descontentamento.

Ilzamar Mendes tem suas razões para se queixar do uso político da memória de seu marido, embora nunca tenha se destacado como militante de frente antes do assassinato. Mas ela ajudou a ampliar o alcance da mensagem dos seringueiros, com apoio dos filhos de Chico Mendes, e seus alertas sobre as perdas das reservas de seringueiras pelo avanço das pastagens precisam ser ouvidas. No entanto, a imprensa deveria estar atenta ao que se passou no Acre nos últimos quinze anos, com as lideranças nascidas no movimento ambientalista que produziram uma inegável renovação na política local, que afastou do poder os coronéis que oprimiam os seringueiros com o gatilho dos jagunços.

O que é que tudo isso tem a ver com o livro de Chen Guidi e sua mulher Wu Chuntao? Tem que a nuvem sombria que pesa sobre a China também se desenha nos céus do Brasil. E ela não é formada apenas pela fumaça que sobe das queimadas na Amazônia. É composta também pela permanência dos abismos sociais, de renda, educação e oportunidades, que os modelos tradicionais da política e da economia não são capazes de reduzir. Assim como soube, até aqui, incensar o crescimento da economia chinesa, à revelia dos danos ambientais e sociais que vem acumulando, a imprensa poderia aproveitar a evidência de que o modelo chinês não deve ser imitado e começar a prestar atenção às propostas alternativas de desenvolvimento que se oferecem ao Brasil.

- Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa, 08/abril/2008

<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=480IMQ005&#c>