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Os ricos ficam mais famintos

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A crise alimentar que está ameaçando as vidas de milhões irá recuar – ou ficará ainda pior com o tempo? A resposta pode ser ambos. O aumento recente no preço dos alimentos foi largamente causado por problemas temporários como seca na Austrália, Ucrânia e outros lugares. Embora a necessidade de imensas operações de resgate seja urgente, a atual crise aguda uma hora acabará. Mas subjacente a ela há um problema básico que apenas se intensificará, a não ser que o reconheçamos e tentemos remediá-lo.

É uma história de dois povos. Em uma versão da história, um país com multidões de pobres subitamente passa por uma expansão econômica acelerada, mas só metade da população compartilha a nova prosperidade. Os favorecidos gastam muito de sua nova renda em comida, e a não ser que a oferta aumente muito rapidamente, os preços disparam. O resto dos pobres agora enfrenta preços maiores nos alimentos sem nenhuma renda adicional, e começam a passar fome. Tragédias como essa acontecem com freqüência no mundo.

Um exemplo claro é a fome em <<<<<<<<<<<<Bengal>>>>>>>>>> em 1943, durante os últimos dias do domínio britânico na Índia. Os pobres nas cidades observaram um aumento rápido em seus rendimentos, especialmente em Calcutá, onde gastos gigantescos na guerra contra o Japão causaram uma inflação repentina que quadruplicou os preços dos alimentos. Os pobres camponeses enfrentaram essa alta astronômica nos preços com um aumento mínimo na renda.

A política do governo mal direcionada piorou a divisão. Os administradores britânicos estavam determinados a prevenir o descontentamento urbano durante a guerra, então o governo comprou comida nas vilas e a venderam, com grandes subsídios, nas cidades, uma medida que aumentou os preços da comida no campo ainda mais. Os mais pobres dos vilarejos passaram fome. Entre dois e três milhões de pessoas morreram devido àquela crise e seus desdobramentos.

Muita discussão é dirigida, com justiça, à divisão entre os têm e os não-têm na economia global, mas os pobres do mundo são eles mesmos divididos entre aqueles que estão passando pela experiência de alto crescimento e os que não estão. A expansão econômica rápida em países como China, Índia e Vietnam tende a aumentar gravemente a demanda por comida. Isto, é claro, é uma coisa excelente por si mesma, e se esses países conseguirem reduzir sua desigualdade interna na distribuição do crescimento, mesmo aqueles deixados para trás estarão comendo muito melhor.

Mas o mesmo crescimento também exerce pressão nos mercados mundiais de alimentos – às vezes através de aumento nas importações, mas também através de restrições ou proibições nas exportações para reduzir o crescimento no preço dos alimentos em determinado país, como aconteceu recentemente em países como Índia, China, Vietnam e Argentina. Os mais duramente atingidos foram os pobres, especialmente na África.

Há também a versão high-tech da história dos dois povos. Cultivos como a soja e o milho podem ser usados para fazer etanol, o combustível para automóveis. Então os estômagos dos famintos ainda devem competir com tanques de veículos.

Políticas governamentais enganosas também fazem seu jogo aqui. Em 2005, o Congresso dos Estados Unidos começou a exigir uso em larga escala do etanol em motores veiculares. Essa lei, combinada com um subsídio para esse uso específico, expandiu o mercado de milho nos Estados Unidos, mas também converteu recursos da agricultura de alimentos para combustíveis. Isso torna a competição ainda mais difícil para os estômagos famintos.

O uso do etanol contribui pouco para a prevenção do aquecimento global e da degradação ambiental, e reformas políticas mais informadas deveriam ser urgentemente criadas, se os políticos o permitissem. O uso do etanol poderia ser reduzido, ao invés de subsidiado e apoiado.

O problema alimentar global não está sendo causado por uma queda mundial na produção, ou a propósito na produção _per capita_ (isso geralmente é dito sem muita evidência). É o resultado da demanda crescente. De qualquer forma, um problema causado pela demanda também requer expansão imediata na produção de alimentos, o que poderia ser feito com mais cooperação global.

Enquanto o crescimento populacional responde por uma pequena parcela da demanda alimentar, ele pode contribuir para o aquecimento global, e a mudança climática no longo prazo pode afetar a agricultura. Felizmente, o crescimento populacional já está desacelerando e há evidências indiscutíveis de que o fortalecimento feminino (incluindo a expansão das escolas para meninas) pode reduzi-lo rapidamente ainda mais.

O mais desafiador é encontrar políticas efetivas para lidar com as conseqüências da expansão extremamente assimétrica da economia global. Reformas econômicas domésticas são pouco necessárias em muitos países de crescimento lento, mas há ainda uma grande necessidade de mais cooperação e assistência globais. A primeira tarefa é entender a natureza do problema.

- Amartya Sen, que ensina economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de economia em 1998 e é o autor, mais recentemente, de “Identity and Violence: The Illusion of Destiny.” The New York Times, Opinion, 28/mai/2008.

<http://www.nytimes.com/2008/05/28/opinion/28sen.html?ex=1369713600&en=38629dd4c7d62120&ei=5124&partner=permalink&exprod=permalink>

(N.T.: Na minha época ele era Nobel da Paz (mas posso estar enganado), e autor de Desenvolvimento Como Liberdade.)

O que a imprensa não diz sobre a inflação da fome

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O noticiário dos últimos dias sobre o risco de uma crise inflacionária mundial, que afetaria com especial severidade os países mais pobres, oferece uma excelente oportunidade para se observar a dificuldade que tem a imprensa para dar uma interpretação mais profunda sobre o estado do mundo. Praticamente tudo que se publica é originado em duas ou três agências de notícias, o que induz a acreditar que se trata de uma deficiência planetária.

Vejamos os pontos principais do fenômeno: os preços dos alimentos básicos, in natura – parte do conjunto de mercadorias chamadas de commodities – vêm aumentando progressivamente ao longo dos últimos 16 meses, com uma aceleração acentuada no último trimestre. Trigo e arroz estão no topo da lista dos grãos mais consumidos, respectivamente a Oeste e a Leste do planeta. O milho completa o cardápio dos mais pobres, que são, segundo o informe Indicadores do Desenvolvimento Mundial para 2008, do Banco Mundial, 880 milhões de pessoas.

Esses indicadores vêm apontando o decréscimo do número de seres humanos extremamente pobres, que dispõem de valores correspondentes a menos de um dólar por dia. Essas são as pessoas que a imprensa chama pobres ou miseráveis, cujas vidas se caracterizam pela necessidade de lutar diariamente por alimento. São não-consumidores, não-cidadãos.

Antes que os sarcásticos elaborem a anedota de mau gosto, deve-se afirmar que o número de pobres não está acabando porque eles morrem. A pobreza vem diminuindo no mundo porque, desde o início deste século, os chamados países em desenvolvimento – sofisma menos indigesto para o que se chamava antigamente de Terceiro Mundo – apresentam uma taxa média de crescimento do PIB per capita de 4,8% ao ano. O PIB per capita resulta do cálculo da riqueza produzida pelo país, dividida pelo número de habitantes, o que revela quase uma ficção, conforme se dá a distribuição de riqueza e bem-estar – com os abismos sociais que se conhece.

Atenção para o fato de que o constante declínio da pobreza mundial desde 1993 aconteceu principalmente na zona rural, visto que a miséria nas cidades permanece mais ou menos constante. A ONU estima que 80% do declínio da pobreza rural se deve à melhoria das condições de vida no campo, e não à migração para as cidades. Isso deve ser levado em conta no noticiário sobre a crise que pode afetar a produção de alimentos.

Fronteiras agrícolas

A “inflação de alimentos” tem parte da origem nesse fenômeno: mais gente cisma de comer todos os dias, aumenta a pressão da demanda sobre a oferta, o preço sobe. Essa a explicação que a imprensa nos empurra nas primeiras linhas das reportagens. É como se o editor nos dissesse: “Procura maior, demanda menor, preço sobe. É o capitalismo, seu estúpido”. Até o presidente Lula comemorou: é a “inflação do bem”, aquela que aparece porque o miserável está saindo da miséria. No fundo, ele tem razão, mas seu raciocínio não completa o desenho.

Tem mais. Nos parágrafos seguintes, os jornais e revistas nos dizem que o preço dos alimentos subiu também porque parte das terras agriculturáveis está sendo utilizada para a produção de biocombustíveis. E os acionistas das empresas petrolíferas sorriem, abrem a caixa de anúncios, investem na semeadura de suspeitas sobre os projetos de substituição da matriz energética petrolífera. Em algum canto, alguém observa que o problema da competição entre o vegetal para consumo e o vegetal para fazer combustível acontece principalmente nos Estados Unidos, onde a disponibilidade de terras agriculturáveis é muito pequena. Nada a ver com o etanol brasileiro. Mas isso fica no pé da matéria.

O Brasil tem um potencial de quase 70% de suas terras agriculturáveis esperando o plantio de vegetais, sejam eles destinados a alimentar pessoas, gado, aves ou preparados para se transformar em álcool ou óleo combustível. Pela mesma razão, não há forma inteligente de justificar o avanço das lavouras sobre o cerrado e a Amazônia. A crença de que o brasileiro tem que escolher entre alimentar seu povo e abastecer seu carro é fruto de uma avaliação divulgada por Lester Brown, criador do WWI – sigla em inglês de World Watch Institute, que no Brasil se chama Instituto Mundial para a Liberdade, o Progresso e a Paz Global –, especialista em economia agrícola.

Muitos outros especialistas o contradizem e consideram sua campanha “comida versus combustível” pura demagogia. Pelo menos no caso do etanol brasileiro, a expansão da lavoura com finalidade de produção de combustíveis necessita apenas de mais ordenamento e mais responsabilidade dos empresários rurais. O Brasil possui uma área total de 845,94 milhões de hectares de terras agriculturáveis, das quais utiliza apenas 263,58 milhões de hectares para atividades agrícolas, ou seja, menos de 32% do seu potencial. Isso indica a possibilidade de expansão das fronteiras agrícolas do país e da capacidade de ampliação da produção de grãos, sem que seja necessário destruir nossa riqueza natural. Além disso, a agricultura brasileira, mesmo em pequenas propriedades, vem melhorando enormemente sua produtividade, na medida em que práticas primitivas de preparação e plantio vão sendo substituídas com a assistência de técnicos qualificados formados por aqui.

Validade endossada

O problema real, no caso brasileiro, tem origens mais antigas do que a invenção do velho Proalcool: trata-se da gestão territorial do país, que nunca considerou seriamente uma reforma agrária com o pressuposto da sustentabilidade. A lavoura avança sobre a floresta porque é administrada por delinqüentes, sob a proteção de governos de estados que formam a Amazônia Legal e sob o olhar complacente do governo federal. A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, é quase uma extraterrestre nesse ambiente. Muitos desses delinqüentes são agricultores pobres, sem terra, que são tangidos pelo avanço dos latifúndios. Eles queimam a floresta, formam pastagens, soltam o gado, depois fazem o rocio. Atrás deles vem o agronegócio.

Mesmo o álcool de milho, alternativa tecnológica dos Estados Unidos baseada na tradição da agricultura local, não deverá no longo prazo continuar sendo um fator de inibição para a produção agrícola. Com o avanço das pesquisas tecnológicas, estamos perto de poder produzir álcool com a palha e a espiga do milho. Como não consta entre as preferências gastronômicas, nem mesmo dos mais pobres, a degustação de espigas, naturalmente as sementes de milho seguirão sendo destinadas ao consumo humano e animal e as demais partes da planta, inclusive a haste, irão para a usina de álcool.

Claro que os subsídios do governo americano aos seus agricultores representam uma pressão adicional sobre o movimento inflacionário que nasce nos preços dos alimentos. Como é que um agricultor da África ou do Peru pode competir com um produtor do Meio-Oeste americano? Observe-se que os insumos agrícolas são fornecidos por multinacionais, que dominam também o mercado de sementes e equipamentos, e pode-se calcular o que é esse tal de mercado “livre”. Esse aspecto adicional da notícia também aparece nas reportagens, meio envergonhadamente, mas não há jornal ou revista que se aventure a colocar em dúvida a validade do sistema econômico que se afirma “liberal”.

Sistema de castas

Por último, mas não menos importante, vem outro ângulo da questão, que tem seu endereço muito longe das lavouras de milho, de trigo ou de arroz: o mercado de ações, onde as commodities vêm ocupando um espaço cada vez mais relevante. De olho na inclusão de quase 1 bilhão de indivíduos na lista dos seres humanos que insistem em se alimentar diariamente, e com a perspectiva de consolidação da indústria de combustíveis alternativos – o mercado de commodities também lida com minérios e outros produtos cuja demanda cresce continuamente –, os investidores depositaram fortunas nas bolsas, na expectativa de aumento dos preços. Em algum momento, a expectativa se realiza, os preços começam a subir, mais investimento é derramado na fogueira, e de repente o mundo se assombra com uma inflação de alimentos básicos.

Já não se pode, como teria feito Maria Antonieta, sugerir que, não havendo pão, os pobres comam brioches. Ou, numa versão nacional, não havendo farinha para tapioca, que se coma caviar. Afinal, somos todos politicamente corretos. A imprensa, então, nem se fala. É profundamente ecológica e socialmente responsável. Basta ler os cadernos especiais sobre Amazônia que são publicados de vez em quando.

Você, leitor e leitora, ainda vai ler muito mais sobre essa crise, porque não há recursos no sistema econômico mundial para contê-la antes que provoque muita fome e distúrbios sociais. Não por falta de dinheiro, mas por falta de lideranças, de vontade política, de condições logísticas e de desprendimento.

O dinheiro necessário para salvar alguns milhões de seres humanos ameaçados pela inanição é uma bagatela: 500 milhões de dólares. Isso é uma fração da fortuna pessoal do mais vistoso empresário brasileiro pertencente à cepa dos “sustentáveis”. O que você provavelmente nunca vai ler é uma análise honesta da imprensa sobre o sistema econômico que divide os seres humanos em castas e considera que uns podem tudo e outros… bem, esses outros não compram jornais.

- Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa, 15/abr/2008

<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=481IMQ002>

Para não fazer o negócio da China

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Chama-se O Segredo Chinês – Milagre Econômico e a Vida Real na China de Hoje – o livro lançado pela Editora Record no mês passado, que seria muito útil nas mãos de jornalistas responsáveis pela orientação das pautas da imprensa brasileira. Se a imprensa não consegue se aproximar do tema da sustentabilidade pelo ângulo do risco ambiental, esse livro se oferece como um instrumento útil para a compreensão do novo contexto global, pela visão do risco social.

A diferença entre uma e outra abordagens é que o risco ambiental, explicitado pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em fevereiro de 2007, produz no máximo campanhas pontuais das quais não resultou ainda qualquer mudança substancial no modelo de desenvolvimento adotado pelo governo brasileiro. Os números recentes do desmatamento da Amazônia, a
despeito de toda a polêmica sobre a acuidade das avaliações via satélite, demonstram que as autoridades não conseguem reverter o processo de perda do patrimônio natural do país.

Nas empresas, o que se vê como resultado da constatação de que as ações humanas conduzem a uma situação irreversível para o planeta ainda são iniciativas pontuais, mais claramente dirigidas para a melhoria da imagem institucional do que destinadas a fazer diferença no cenário de risco. Contam, quase sempre, com a boa vontade da imprensa em destacar as “boas ações”, naquilo que se convencionou chamar responsabilidade socioambiental das empresas.

Repensar o modelo

O livro O Segredo Chinês…, escrito pelo casal de jornalistas e escritores Chen Guidi e Wen Chuntao, tem o mérito de radiografar o mundo rural chinês, revelando que o modelo de desenvolvimento daquele país produziu a exclusão de nada menos do que 900 milhões de cidadãos, dos quais 700 milhões são agricultores sempre à beira da fome e do desespero, mas ainda presos ao campo, e 200 milhões são trabalhadores rurais que vagueiam pelo país, de obra em obra, longe de suas famílias, em busca de trabalho e sustento. Uma estrutura burocrática inchada e corrupta completa o quadro.

O ponto de inflexão que deveria chamar a atenção dos jornalistas brasileiros é o fato de que o livro foi lançado em 2004, quando a China alcançava níveis de crescimento surpreendentes, entre 8% e 9% ao ano, sob aplausos da imprensa ocidental. Não foram poucas as manchetes de jornal e as capas de revista comparando o robusto crescimento da China contra os minguados 2,5% da economia brasileira no período.

Também não se pode esquecer o desfile de economistas exigindo crescimento a qualquer custo, articulistas especializados e os corneteiros de sempre a cobrar mais facilidades para o capital e menos restrições para os negócios.

O livro, traduzido para o mercado brasileiro com três anos de atraso, revela, para quem queira tomar conhecimento, um fato que os estudiosos do processo da globalização e os profissionais preocupados com a busca da sustentabilidade vêm gritando em vão: o crescimento sem respeito ao meio ambiente e sem ganhos sociais é retrocesso. Como curiosidade, deve-se registrar o título que a Folha de S.Paulo deu ao texto sobre o livro, na edição do dia 29 de março: “Camponeses perturbam milagre chinês”.

O que os autores do livro testemunham é um fato relatado há tempos por executivos brasileiros que visitam regularmente o interior da China. Paralelamente ao desastre ambiental que se processa naquele país, desenha-se lá também aquilo que o ecossocioeconomista Ignacy Sachs chama de a iminência de um “tsunami social”. Modestamente, este observador deu sua contribuição para o debate no livro O Mal-Estar na Globalização (2005, Editora A Girafa), prêmio da União Brasileira de Escritores, na categoria ensaio, em 2006. Houve dezenas, talvez centenas de seminários, debates, defesas de teses, pesquisas, mas a imprensa seguiu martelando a defesa do velho modelo da busca de resultados financeiros das empresas como única forma de estimular o crescimento da economia.

Não se trata apenas de incapacidade da imprensa para entender a necessidade de repensar o modelo econômico, ou de falta de disposição para romper com os paradigmas que tradicionalmente orientam as escolhas editoriais. Trata-se também da ausência de sensibilidade para determinados temas, que parecem esgotados depois do tardio engajamento da mídia nacional na campanha pela redemocratização do país, nos anos 1980.

Propostas alternativas

O Brasil celebra em 2008 os trinta anos da Constituição de 1988, fundamental para a reconstrução do Estado de Direito, da qual a imprensa tirou grandes benefícios. Também são lembrados os vinte anos do assassinato do ambientalista Chico Mendes, líder dos seringalistas do Acre. A imprensa cobriu bem o desenvolvimento da Constituinte, mas ignorou a luta de Chico Mendes praticamente até o dia da sua morte, mesmo depois que ele já havia se tornado uma figura reconhecida internacionalmente, com o prêmio Global 500 da ONU. A exceção era o jornal alternativo Varadouro, mantido de 1977 a 1981 pelos jornalistas Elson Martins e Sílvio Martinello, com risco constante de perder suas próprias vidas.

Durante todos os anos da luta dos seringueiros, até 2008, a imprensa regional da Amazônia apoiou incondicionalmente os fazendeiros que, com financiamento oficial e suporte do Estado, empurravam as fronteiras da agropecuária para dentro da floresta, tornando impossível a vida dos seringueiros. Dezenas de coletadores de castanhas e de látex foram mortos por pistoleiros, sob o silêncio omisso e cúmplice da imprensa nacional, até o dia 22 de dezembro de 1988, quando Chico Mendes tombou, baleado por um criador de gado. A imprensa brasileira só enxergou o drama dos seringueiros depois que o New York Times publicou em primeira página uma reportagem sobre o drama que se desenrolava nas florestas da Amazônia Ocidental.

Na semana que passou, a revista Veja voltou a se interessar por Chico Mendes. Mas não necessariamente para relembrar sua luta e atualizar seus leitores sobre a luta pela preservação da maior reserva de biodiversidade do planeta. O que chamou a atenção de Veja foi o cheiro de sangue: a viúva de Chico Mendes, Ilzamar, concedeu entrevista ao blog do jornalista acreano Altino Machado, na quarta-feira (2/4), na qual desfiou um rosário de queixas contra o governo petista do Acre, a quem acusa de não respeitar o legado do líder ambientalista. Jornalistas de Veja passaram os últimos dias tentando falar com ela, para dar amplitude nacional ao seu descontentamento.

Ilzamar Mendes tem suas razões para se queixar do uso político da memória de seu marido, embora nunca tenha se destacado como militante de frente antes do assassinato. Mas ela ajudou a ampliar o alcance da mensagem dos seringueiros, com apoio dos filhos de Chico Mendes, e seus alertas sobre as perdas das reservas de seringueiras pelo avanço das pastagens precisam ser ouvidas. No entanto, a imprensa deveria estar atenta ao que se passou no Acre nos últimos quinze anos, com as lideranças nascidas no movimento ambientalista que produziram uma inegável renovação na política local, que afastou do poder os coronéis que oprimiam os seringueiros com o gatilho dos jagunços.

O que é que tudo isso tem a ver com o livro de Chen Guidi e sua mulher Wu Chuntao? Tem que a nuvem sombria que pesa sobre a China também se desenha nos céus do Brasil. E ela não é formada apenas pela fumaça que sobe das queimadas na Amazônia. É composta também pela permanência dos abismos sociais, de renda, educação e oportunidades, que os modelos tradicionais da política e da economia não são capazes de reduzir. Assim como soube, até aqui, incensar o crescimento da economia chinesa, à revelia dos danos ambientais e sociais que vem acumulando, a imprensa poderia aproveitar a evidência de que o modelo chinês não deve ser imitado e começar a prestar atenção às propostas alternativas de desenvolvimento que se oferecem ao Brasil.

- Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa, 08/abril/2008

<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=480IMQ005&#c>

Fontes de energia alternativa têm quadro desanimador no país

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Governo revela dificuldade de explorar o grande potencial energético nacional e não cumpre as metas oficiais

SÃO PAULO – O ano de 2008 começou com um quadro pouco animador para o desenvolvimento das fontes alternativas de energia no Brasil. As duas principais ações do governo federal na área, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) e o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), ainda patinam em seus resultados e não cumprem as metas estipuladas inicialmente.

Isto revela a dificuldade que o País tem em explorar de maneira viável o grande potencial energético disponível em território nacional. O saldo atual do Proinfa é prova do insucesso das políticas governamentais na área. Dos 3,315 mil MW contratados pelo programa, apenas 1,048 mil MW entraram em operação ao final de 2007. Ou seja, dos 144 empreendimentos classificados entre térmicas a biomassa, Pequenas Centrais Hidrelétricas e usinas eólicas, apenas 39 projetos estão disponibilizando energia para o sistema.

Talvez isso poderia até não ser problema se o balanço energético do País estivesse tranqüilo. Mas, nesse momento de esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas, esses 2,266 mil MW indisponíveis poderiam contribuir junto com as térmicas a gás natural, óleo combustível e nuclear para poupar água das usinas.

Inicialmente, os 144 empreendimentos deveriam entrar em operação ao final de 2006. Mas o prazo não foi cumprido e o Ministério de Minas e Energia (MME) estabeleceu nova data para o final de 2008. Pelo levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), esse novo cronograma não deverá também ser cumprido. Dos 2,062 mil MW previstos para entrar em operação este ano, apenas 908,4 MW não possuem nenhum tipo de restrição nas obras.

Nesse balanço, destaque negativo para a energia eólica. Isso porque 901,29 MW de energia da fonte possuem restrições à entrada em operação. De acordo com a agência, 33 projetos eólicos não iniciaram as obras, apesar de já possuírem licença de instalação.

Benefícios para atrair a iniciativa privada

O contraditório é que o programa ofereceu uma série de benefícios para atrair a iniciativa privada. Entre os benefícios estão a compra por 20 anos de toda a energia pela Eletrobrás e a garantia de que a estatal elétrica asseguraria ao empreendedor uma receita mínima de 70% da energia contratada durante o período de financiamento.

Além disso, a Eletrobrás protegeria integralmente os investidores dos riscos de exposição do mercado de curto prazo. Se não bastasse isso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criou uma linha de financiamento para os projetos enquadrados no Proinfa.
Mesmo assim, o projeto emperrou desde o começo.

Lançado em 2002 como uma política do governo federal para promover a diversificação da matriz elétrica, o Proinfa foi revisado em 2003 e enfrentou o primeiro problema logo no início, no processo de contratação da energia. Inicialmente, previa-se a contratação de 3,3 mil MW, sendo 1,1 mil MW de cada fonte.

Após nova seleção, apenas 700,9 MW da fonte foram contratados. A diferença foi compensada pela maior adesão das usinas eólicas, somando 1,422 mil MW, e das PCH, que totalizaram 1,191 mil MW. Vários são os motivos apontados para o modesto desempenho do Proinfa: a demora da regulamentação do programa pelo governo, o que só ocorreu em 2005 e o excesso de burocracia do BNDES para o financiamento, que exige uma série de garantias dos empreendedores, encarecendo a operação.

Igualmente, são apontados como fatores restritivos o movimento especulativo entre os titulares das concessões de PCH, que ganham o direito de construir as usinas e, em vez de executar o projeto, ficam a espera de um comprador para a outorga; problemas na indústria de equipamentos para usinas eólicas, já que existe apenas um fornecedor instalado no Brasil.

E, finalmente, o preço, que foi considerado baixo – para eólica: a energia foi comprada a R$ 204/MWh, biomassa entre R$ 93/MWh e R$ 169/MWh, dependendo do insumo, e PCH a R$ 117/Mwh. A exemplo do Proinfa, o PNPB também não decolou nesse início de obrigatoriedade da mistura de 2% (B2) ao diesel em 2008, ainda que seja necessário considerar que a indústria do biodiesel é algo recente na história brasileira.

Biodiesel poderia repetir sucesso do etanol

Entusiasmado pelo desempenho na produção de etanol, o governo federal enxergou também a oportunidade de repetir o mesmo sucesso no biodiesel, adicionando em sua estratégia de desenvolvimento da cadeia produtiva a participação da agricultura familiar, para gerar renda e emprego no campo.

Pelo caráter social, o PNPB é tido como uma das principais ações da política energética do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O programa foi estruturado para que os pequenos agricultores forneçam a matéria-prima, como mamona, dendê e pinhão-manso, para a produção do óleo vegetal, que posteriormente será transformado em biodiesel pelos produtores.

Para estimular o funcionamento dessa cadeia produtiva, o governo federal criou o “Selo Combustível Social”. Ele confere desoneração tributária, condições especiais de financiamento do BNDES e direito a participação nos leilões de compra do biocombustível organizados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP) para os produtores de biodiesel que comprarem a matéria-prima dos agricultores familiares.

Selo

De acordo com o analista da consultoria Safras & Mercado, Miguel Biegai Junior, essa fragilidade da cadeia produtiva tem levado aos grandes produtores a comprarem o percentual mínimo de matéria-prima previsto em lei para obter o selo social e, assim participarem dos leilões da ANP, porque os benefícios com a certificação não compensam os custos envolvidos com a operação.

Isso explica, nesse sentido, a grande penetração da soja como principal insumo para a produção do biodiesel, aproveitando a economia de escala que possui o cultivo do grão. De fato, hoje a soja é a única cultura em condições de suportar o crescimento da indústria de biodiesel no curto prazo. Outras culturas, como mamona e pinhão-manso, ainda são pouco produzidas no Brasil.

- Editorial de Economia, Tribuna da Imprensa, 11/fev/2008

<http://www.tribuna.inf.br/>

A polêmica da transposição

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Especialista em hidrologia do semi-árido põe em dúvida reais benefícios do programa para o Rio São Francisco

Um dos mais antigos projetos brasileiros na área de recursos hídricos, a transposição do Rio São Francisco, idealizado para amenizar os problemas das secas na Região Nordeste, ainda é alvo de acalorados debates, mesmo no momento em que começa a sair do papel. Enquanto o governo sustenta que a transposição será um verdadeiro instrumento de transformação da realidade do semi-árido, muitos grupos da sociedade civil apostam que o projeto não beneficiará as populações locais, mas sim o agronegócio, empresários e latifundiários.

Um dos opositores da transposição, o pesquisador e engenheiro agrônomo da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco, João Suassuna, considerado atualmente um dos maiores especialistas do País em questões de hidrologia do semi-árido e conhecimento sobre o Rio São Francisco, afirma que o resultado final, efetivado o projeto, irá surpreender muita gente.

“Quem achar que a transposição vai resolver o problema da população difusa nordestina, e estou falando em termos de 10 milhões de pessoas que vivem nos pés-de-serra, nos grotões, nos pequenos lugarejos, em sítios, e estão sendo assistidas por frotas de caminhões-pipa, se engana. Tais pessoas não vão ver a cor da água do São Francisco”, sustenta Suassuna. Clique aqui e leia mais…

O que é a “geração de empregos” do governo?

Posted in Sem-categoria com as tags , , , , on Quarta-feira, 9/Janeiro/2008 by desligue

Uma ponte é construída. Se for construída para atender a uma insistente necessidade pública, se resolve um problema de transporte insolúvel de outra maneira, se, em suma, ela é mais necessária do que as coisas nas quais os cidadãos gastariam seu dinheiro que foi convertido em impostos – então não há objeção. Mas uma ponte construída primariamente “para gerar empregos” é um tipo diferente de ponte. Quando o fim é gerar empregos, a necessidade se torna uma consideração subordinada. “Projetos” devem ser inventados. No lugar de pensar apenas onde as pontes devem ser construídas, o governo começa a se perguntar onde pontes podem ser construídas. Eles conseguem imaginar uma razão plausível pela qual uma ponte adicional deva ser construída ligando A a B? A razão logo se torna essencial. Aqueles que duvidam da sua necessidade são descartados como obstrucionistas do desenvolvimento e reacionários.

Um dos argumentos comumente usados para defender a construção da ponte (ou usina, estrada…) é que isso criará empregos. Proverá, digamos, 500 empregos por um ano. A implicação é que esses empregos não existiriam de outra forma.

Isto é o que se torna imediatamente visível. Mas se tivéssemos o costume de olhar além do imediato até as conseqüências secundárias, e além daqueles diretamente beneficiados por um projeto governamental para aqueles que são afetados indiretamente, então um novo quadro surge. É verdade que um grupo particular de operários receberá mais empregos do que se a ponte não fosse erguida. Mas a ponte precisa ser paga com o dinheiro proveniente dos impostos. Para cada real gasto na ponte, um real deve ser retirado dos contribuintes. Se a ponte custar R$1.000.000, os contribuintes terão gasto perdido R$1.000.000. Eles se verão subtraídos de uma quantia que certamente teriam usado em algo de que necessitam mais.

Portanto, para cada emprego público criado pelo projeto da ponte, um emprego privado foi destruído em algum outro lugar. Nós podemos ver os homens empregados na ponte. Nós podemos observá-los trabalhando. O argumento da geração de empregos do governo se torna vívido, e provavelmente convence a maioria das pessoas. Mas há outras coisas que nós não vemos simplesmente porque elas não puderam se concretizar. Essas coisas são os empregos destruídos pelo R$1.000.000 retirado dos contribuintes. Tudo que aconteceu, na melhor das hipóteses, foi um desvio de empregos por causa de um projeto. Mais operários na ponte, menos empregados na indústria automobilística, ou técnicos de rádio, costureiras ou fazendeiros.

- Henry Hazlitt, Economics in one lesson, Cap. 4

<http://www.fee.org/library/books/economics.asp>

Migração, Interrompida: os ritmos da natureza em risco

Posted in Sem-categoria com as tags , , , on Quinta-feira, 3/Janeiro/2008 by desligue

O mundo está repleto de caminhos invisíveis, as rotas tomadas todos os anos por incontáveis bandos de gansos, cervos e salmões, ou libélulas, zebras e tartarugas de couro.

Suas migrações nos tocam além da compreensão. Observadores de pássaros se agrupam em locais como o Cabo May, em New Jersey, para assistir as aves em suas jornadas para o extremo norte na primavera e seu retorno para os trópicos no outono. Ecoturistas vão para o Serengeti apontar seus binóculos para manadas de antílopes que se estendem pelo horizonte. Estudantes nos Estados Unidos observam as borboletas monarcas saírem de suas crisálidas dentro das salas de aula e então partirem rumo ao México.

Mas em seu novo livro “No Way Home” (Sem Caminho Para Casa), David Wilcove, um biólogo de Princeton, alerta que “o fenômeno da migração está desaparecendo ao redor do mundo.”

Apesar de seu grande número, as espécies migratórias são particularmente vulneráveis à caça, à destruição dos ambientes naturais e às mudanças climáticas. Os humanos já erradicaram algumas das maiores migrações do mundo, e muitas outras já estão desaparecendo. Enquanto muitos biólogos conservacionistas têm observado o declínio de migrações individuais, o livro do Dr. Wilcove os combina numa síntese alarmante. Ele argumento que não são apenas as espécies individuais que deveríamos estar conservando — nós também precisamos proteger o estilo migratório de vida.

Como cientista, o Dr. Wilcove considera o desaparecimento das migrações mundiais particularmente triste, pois há muito ainda a aprender. Quais são as pistas que guiam os animais durante suas jornadas? Como eles navegam distâncias imensas para lugares onde nunca estiveram? Como algumas espécies viajam por dias sem comer um único grão de comida?

Os cientistas nunca poderão responder essas perguntas a respeito de migrações que deixaram de existir. As jornadas de dezenas de milhões de búfalos nas Grandes Planícies americanas permanecerão um mistério.

Mas hoje os cientistas estão inventando novas maneiras de aprender sobre os migrantes sobreviventes. Eles podem anexar pequenos sensores em libélulas ou analisar penas quimicamente para descobrir os pontos de invernada de algumas aves.

Infelizmente, muito do que eles estão descobrindo é sobre as ameaças que um mundo dominado por seres humanos impõe às migrações.

Os animais são particularmente suscetíveis à caça enquanto migram porque viajam em vastos grupos, em locais e lugares previsíveis. A sobrevivência de animais migratórios depende de todos os hábitats ao longo da viagem. E uma espécie de ave migratória pode desaparecer se as florestas onde passam o inverno forem derrubadas, ou se seus lares de verão forem destruídos, ou se os locais onde descansam ao longo da migração desaparecerem.

Ao menos as aves se dão ao luxo de poder voar; quando os salmões do Pacífico Norte nadam dos mares em direção à cabeceira dos rios até os seus locais de reprodução, eles agora precisam atravessar inúmeras represas. O lago Redfish (peixe vermelho), em Idaho, ganhou seu nome pela cor dos milhares de salmões que coloriram suas águas após nadarem cerca de 1500 quilômetros a partir do mar. Este ano apenas quatro salmões alcançaram o lago.

Em “No Way Home”, o Dr. Wilcove também descreve ameaças que apenas recentemente foram compreendidas. Os chopins (gênero Molothrus) podem devastar populações de aves canoras migratórias nos Estados Unidos por parasitar seus ninhos, por exemplo. As mães dos chopins derrubam ovos de outras espécies dos ninhos e colocam o seu próprio no lugar. E acontece que florestas fragmentadas são um hábitat excelente para os chopins.

Nos próximos anos, alerta Wilcove, o aquecimento global pode ter um efeito enorme sobrer as migrações, fragmentando ecossistemas e deixando animais migratórios sem alimento.

É difícil chegar a uma estratégia para preservar um fenômeno tão multifacetado quanto a migração anual. Se uma espécie de árvore que vive apenas em parte da Flórida está ameaçada, a solução é simples: tente conservar aquele pequeno trecho de hábitat. Mas animais migratórios não respeitam fronteiras internacionais. Sua preservação exige que os países trabalhem em conjunto para encontrar soluções. O Dr. Wilcove aponta alguns bons modelos — a conservação das planícies do Serengeti, conseguida pela união dos governos da Tanzânia e do Quênia, e os esforços conjuntos dos Estados Unidos e Canadá para proteger o grou canadense (Grus canadensis).

Mas uma ave como o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus), que passa os verões no Ártico e os invernos na Terra do Fogo, no extremo sul da América do Sul, parando no caminho para se alimentar ao longo de toda a América do Norte e do Sul, vai exigir um nível de cooperação sem precedentes.

É, como escreve o Dr. Wilcove, uma luta justa: “é um dos mais assustadores e gratificantes desafios na conservação da vida selvagem”.

- Carl Zimmer, New York Times.

<http://www.nytimes.com/2008/01/01/science/01migr.html?_r=1&ref=science&oref=slogin>

Menos, menos…

Posted in Sem-categoria com as tags , , , on Terça-feira, 27/Novembro/2007 by desligue

“As mais importantes revoluções na história da ciência tiveram como seu tema comum [...] o sucessivo destronamento da arrogância humana de um pilar após o outro de sua antiga segurança cósmica. [...] Uma vez pensamos que vivíamos no centro de um universo limitado, até que Copérnico, Galileu e Newton identificaram a Terra como um pequeno satélite de uma estrela marginal. Então nos confortamos com a idéia de que Deus tinha, entretanto, escolhido este local periférico para criar um organismo único à Sua imagem – até que Darwin chegou e ‘relegou-nos a descender do mundo animal’.”

- Stephen Jay Gould (1941-2002)

Mecânico do ES inventa motor a ar 100% ecológico

Posted in Sem-categoria com as tags , on Sexta-Feira, 23/Novembro/2007 by desligue

Ele não rejeita a comparação com o Professor Pardal das histórias em quadrinhos, mas o mecânico Antônio “Pedro” Dariva, leva a sério sua invenção: um motor que funciona com ar comprimido. Sem o uso de combustíveis e capaz de se auto-abastecer, o equipamento é apontado pelo seu criador como o novo paradigma em motores.

Tudo começou há mais de 25 anos, quando Dariva teve a idéia de usar o ar comprimido para mover os pistões de um motor. “O motor a combustão funciona por causa do aumento de pressão. Então eu pensei que se usasse outro produto para provocar essa mudança de pressão, seria possivel fazer o mecanismo funcionar, sem jogar mais poluição no ar e sem depender do petróleo”, conta o inventor.

Da idéia inicial até o primeiro protótipo, foram cinco anos. A primeira patente foi obtida em 1994. Mas para chegar no nível atual de eficiência, foi necessário investir tempo e quase todo o dinheiro que ganha trabalhando na oficina mecânica da família, localizada em Vila Velha, região metropolitana de Vitória.

Para aprimorar seu projeto, Dariva, que não tem formação acadêmica, estudou o comportamento dos gases. O motor funciona com ar atmosférico comprimido. Um cilindro, semelhante aos utilizados por mergulhadores, é o “tanque de combustível”. Na verdade, segundo o inventor, o ar comprimido no cilindro serve para dar a partida no motor, que tem a capacidade de devolver ao cilindro 75% do ar consumido.

“Até aqui, chegamos a uma eficiência de 70, 75%. Isso significa que o motor repõe o ar comprimido enquanto funciona, aumentando a autonomia. No futuro, com a utilização de materiais e tecnologias mais avançadas, acredito que vamos poder aumentar isso”, explica Dariva.

Montagem
Todo as etapas do projeto, da concepção à fundição e usinagem das peças, foram executadas pelo mecânico, com a ajuda de alguns amigos. “Sem eles, eu não chegaria até aqui. Teve muita gente trabalhando de graça, de noite, para me ajudar nisso”.

O princípio de funcionamento é aparentemente simples: depois de acionado, o motor recolhe o ar do meio ambiente e o comprime em uma câmara, onde a temperatura chega a aproximadamente 400ºC. Neste momento, o ar se expande, liberando a energia necessária para mover os pistões e fazer o motor funcionar.

Nesse processo, o ar se resfria rapidamente e é expelido a uma temperatura de 10 graus negativos. “Como o ar expelido é mais frio que o ambiente, ele pode ser utilizado como refrigeração do carro e até no ar condicionado. Isso ajuda a proteger a camada de ozônio. Além disso, o motor capta ar quente e poluído e devolve ar frio e filtrado para a atmosfera”, afirma o inventor.

Como não utiliza a queima de combustíveis para gerar energia, o motor a ar comprimido é totalmente não poluente. O óleo lubrificante também tem um rendimento superior, podendo durar até quatro anos, porque não se contamina com resíduos da combustão.

Potência
Dariva já tem dois protótipos prontos, funcionando, que foram apresentados na Feira Internacional de Econegócios e Tecnologias Limpas, realizada no último fim de semana no município de Serra, região metropolitana de Vitória. O primeiro é um motor de 2 cilindros, com potência de 30 HP a 3 mil RPM. O segundo, um motor de 10 cilindros – sendo 8 ativos e 2 para reabastecimento – com potência de 70 Hp a 4 mil RPM.

Ele afirma que um veículo com este motor, utilizando um cilindro de 24 metros cúbicos, igual aos usados por veículos movidos a gás natural (GNV), poderá rodar 350 Km sem reabastecer. “Como ainda não alcançamos 100% de eficiência, depois de um tempo o motor perde pressão e é preciso recalibrar o cilindro”, explica.

Agora, o inventor capixaba sonha com a produção em série desses motores. Para isso, ele criou um empresa, dedicada à captação de recursos para o desenvolvimento de tecnologias ecológicas. “Com a ajuda de investidores, será possível tornar esse sonho realidade”, afirma Dariva.

- Alex Cavalcanti, Terra – Tecnologia

<http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1872911-EI300,00.html>

A apologia do consumo e do caos

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Qual seria o significado de “moderno”? Como seria um “país moderno”? Depois de ler a edição especial de 40 anos da revista Exame de outubro, cuja capa gritava “1967-2007, a construção de um país moderno” – mas que para mim apresenta idéias ultrapassadas –, resolvi recorrer ao dicionário. Na minha busca, o sentido que mais se aproxima do que imagino que o editor da revista tenha tentado transmitir é o que traz a idéia de contemporaneidade, de atualidade.

A capa é ilustrada com uma montagem de fotografias daqueles prédios de vidro escurecido, de arquitetura futurista, edifícios normalmente pouco eficientes energeticamente, com pouco aproveitamento da luz solar e lacrados de forma a tornar essencial o uso constante de aparelhos de ar condicionado e luzes artificiais. Modernos?

Com as informações de que dispomos hoje sobre a crise ambiental, em especial do clima, “moderno”, no meu entender, é pensar um novo mundo, onde o ser humano consiga reconstruir suas idéias e sua forma de vida para alcançar uma nova relação, mais benigna, com o planeta. Reduzir a demanda por energia e o consumo são essenciais para atingir essa meta.

EUA, o objetivo

Mas o pessoal que fez a revista não parece pensar assim. A palavra “moderno” é repetida incontáveis vezes nas reportagens, sempre associada à proliferação de automóveis e shopping-centers, à explosão do consumo e ao inchaço das cidades. Monstruosidades como a Grande São Paulo, um aglomerado insustentável de 18 milhões de seres humanos, são colocadas como prova de que o Brasil está indo no caminho certo. De que o país saiu de uma economia “agrária, atrasada e fechada (…) para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo”.

No final da matéria principal (e só ali), em um breve parágrafo, são espremidas as dívidas sociais do país. Detalhes como a fome, a violência, a vexaminosa concentração de renda e uma taxa de analfabetismo superior à média da América Latina não podem atrapalhar uma festa tão bonita e luxuosa do Brasil “moderno”. Por falar nisso, a Daslu, claro, é citada como prova do sucesso do nosso modelo de país.

Toda a lógica das reportagens especiais pode ser resumida na idéia de que a felicidade humana mora no consumo, no crescimento do poder de compra e em quanto um povo é capaz de comprar bens supérfluos (aliás, a palavra “supérfluo”, que fazia muito sucesso antigamente, parece agora ter saído de moda. Sinal dos tempos). Os Estados Unidos, “a sociedade de consumo por definição”, são colocados como objetivo a ser alcançado por nós, brasileiros.

Apenas textos editoriais

A esta altura você pode estar se perguntando como eu poderia esperar algo diferente de uma revista de direita. Tem razão, e eu não espero. O que quero, voltando à questão colocada no início do texto, é questionar o conceito de “moderno”, usado pela revista para defender o aumento da produção e do consumo e a transferência das pessoas do campo, para que se acumulem nas cidades e sejam substituídas por máquinas.

Como podem os responsáveis pelos textos daquela revista ignorar a realidade que nos cerca a todos, eles incluídos? Como podem propor como ideal para o futuro que todos os povos atinjam o padrão de consumo dos norte-americanos, quando se sabe que isto é impossível? É do conhecimento de todos que não dispomos de recursos naturais para tanto.

A Exame, assim como a revista Veja, transformou-se, já há alguns anos, numa revista editorialista. Não existem mais reportagens; apenas textos editoriais reafirmando a forma de pensar do Grupo Abril. Uma reportagem recente da Veja também comemora, ignorando a questão ambiental, o recorde em 2007 na venda de carros (2,5 milhões) e de celulares (50 milhões).

Como resolver o enigma

O que seria do mundo se todo habitante adulto dirigisse seu próprio carro? Que seria do Brasil e de outros países marginalizados se chegássemos às taxas norte-americanas de quase um carro por habitante? Do ar? Do trânsito?

Fico em dúvida se este pessoal realmente ainda não entendeu a gravidade da situação ecológica “moderna” ou se estamos lidando com hipocrisia pura. Chego à conclusão, ao ler, na mesma edição, uma reportagem orientando os empresários sobre as formas de aplicação mais eficientes de seus programas sócio-ambientais, que a ficha não caiu. A responsabilidade ambiental é vista apenas na sua casca, apenas como forma de melhorar a imagem da empresa, sem reflexão sobre seu real sentido e sem aprofundamento no tema.

Existe um abismo, em textos de um mesmo veículo de comunicação, entre a defesa do ambientalismo como ideal, de um lado, e a defesa de atitudes que vão contra os princípios que mostram ser realmente efetivos na batalha contra o descontrole climático, de outro. Isso é comum não apenas nas páginas de revistas reacionárias, mas dentro de nós mesmos.

Também não é fácil lidar com a situação para aqueles entre nós para os quais a ficha já caiu, para quem já entendeu a gravidade da situação e sabe que não há outro caminho a seguir que não o de uma mudança radical nos hábitos, costumes e formas de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia no planeta. Como resolver este enigma vivendo dentro de um sistema ainda baseado nas formas ultrapassadas – para alguns, modernas – de lidar com a realidade que nos cerca é um enigma cuja resposta deve ser encontrada por cada um, numa busca dentro de si mesmo.

- Danilo Pretti Di Giorgi, Observatório da Imprensa

<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=460FDS003>